Aquele que é corajoso, é livre
Eurípides
“Tudo começou com um Renato ainda menino. Aos seis anos de idade, ganhei de minha mãe um disco da trilha sonora de ‘A Branca de Neve’, onde a voz da princesa era interpretada por Dalva de Oliveira. Ali, na vitrola da infância, nasceria uma paixão avassaladora e que atravessaria décadas, palcos e revoluções — culminando no encontro real e improvável entre fã e diva poucos anos antes dela nos deixar”, diz Renato Borghi.
Quando a peça terminou, constatei que era uma homenagem a Renato Borghi , ator, diretor de teatro, que sempre caminhou por estradas paulistanas. Montou espetáculos e atuou como ícone da cultura.
Com seus 89 anos, iluminados, presença marcante, voz personalíssima, estava sentado em uma poltrona fascinando o público presente.
A peça ‘Minha Estrela Dalva’ conta uma passagem desse talentoso ator e diretor: um fã invade o camarim de sua musa, Dalva de Oliveira, para realizar um sonho. Propor a ela um espetáculo revolucionário, em que a “rainha da voz” cantaria canções de Bertolt Brecht e Kurt Weill, canções que o ator amava. Maravilhado, Borghi diz que Dalva não só canta, mas que sente o que canta. Que isso a tornava especial e única para ser a interprete desse evento revolucionário.
Dalva de Oliveira, mulher à frente de seu tempo, que transformou dor em poesia, vida em música e foi considerada a maior cantora do Brasil. rebelde, livre. ousada em tudo que fazia. Atrevida para sua época, lutava contra as atitudes machistas de suas relações, da dos colegas de profissão que sempre a colocavam num patamar inferior, abaixo de seu talento e profissionalismo.
Não viveu a nossa época de feminismo, mas já levantava a bandeira da independência, da liberdade, da posição da mulher. Criou a sua própria história, com sofrimento, luta, mas com o aplauso do público por ser uma das vozes mais bonitas deste país.
A protagonista da peça a atriz e cantora Soraya Ravenle, que interpreta Dalva de Oliveira, tem entrega visceral e apaixonada. Ela é o momento alto da peça e desenvolve, com maestria, o roteiro com interpretação vocal segura, de sublime sentimento e trabalho corporal perfeito. Leva o público a vivenciar o encanto de sua voz de cantora e atriz
Elcio Nogueira Seixas, ator, parceiro e amigo de Renato Borghi, interpreta o próprio na sua juventude no final dos anos 1960, um jovem da contracultura, que entre a rebeldia do Teatro Oficina e o glamour do Rádio, descobre em Dalva de Oliveira a alma do Brasil. Vemos nesse artista a admiração pela cantora e o respeito por sua vida e obra.
Seixas e Elias Andreato assinam a direção do espetáculo .
Ivan Vellame, com voz de rara beleza, dá vida aos amores de Dalva, com destaque para o compositor Herivelto Martins, marido da estrela, trazendo ao palco sambas imortais e os conflitos públicos e midiáticos que marcaram a era do rádio.
Às mulheres não era permitido o protagonismo. Essa peça mostra como foi difícil ser uma mulher artista nessa época, independente e guerreira.
A cenografia de Marcia Moon cria movimento às cenas, realizada com conceito moderno e prático para as mudanças de situações e lugares.
O desenho de Luz de Wagner Pinto tem uma concepção criativa e de clara beleza.
O figurino de Fabio Namatame não segue o mesmo caminho. Tem duas concepções que não ficam muito claras na proposta.
O diretor musical William Guedes escreve os arranjos para uma interpretação precisa dos atores, um trabalho cuidadoso e necessário para o musical . Guedes realiza com excelência.
Produção bem cuidada, encanta o público, principalmente o acima de 60 anos, que acompanha o espetáculo com olhos marejados, por reviver a época do glamour das cantoras do rádio e que marcou gerações. Época de glória ,luxo e encantamento.
Pamela Duncan–
Revisão : Beto Previero
Blog pensamento
www.pameladuncan.art.br
gazeta vila Guilherme
Minha Estrela Dalva’
Temporada: 28 de março a 12 de julho
Sessões: quinta a sábado, 20h; domingo, 19h
Centro Cultural Fiesp | Teatro do SESI-SP – Avenida Paulista, 1.313 (em frente à estação Trianon-Masp do metrô)

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