Somos o que somos, mulheres!
O Espetáculo Asas de Pano marca os 40 anos de carreia da atriz Eliety Cigaarini. Este é seu primeiro texto teatral no qual a atriz e diretora volta o olhar para sua trajetória profissional e pessoal em uma dramaturgia que a confronta com segredos revelados, esquecidos e guardados no coração.
A história narrada no palco mostra uma contadora aposentada, exímia na arte de “ajustar” números, que entra em conflito ao ver a filha prestes a sair de casa em busca da sua independência. Enquanto tenta impedir essa partida, ela passa a receber ligações misteriosas de sua mãe já falecida.
O espetáculo se propõe a dar forma concreta a esse embate interno das diferentes gerações – mãe e filha e mãe – por meio de uma encenação que integra intimidade e imaginação, transformando o palco em um território onde o passado não esclarecido flutua em um mar de alucinantes emoções e miragens.
A Presença simultânea de tempos distintos, tratada de modo sensível, oferece ao público uma experiência de reflexão sobre identidade, escolhas e heranças afetiva, levando-o a elucidar até seus próprios segredos.
A personagem principal se digladia em conflitos de mãe e filha – dores, amores, fracassos, palavras – que são guardados profundamente ao longo da caminhada. Mas chega um “DIA” que, a partir de um acontecimento significativo, leva-a a refletir sobre o que fez e que faz sentido na sua trajetória de vida, dores e sentimentos, às vezes bem resolvidos e às vezes não, mas que precisam ser revistos, colocados na mesa e talvez devam ser encarados de forma diferente.
Essa obra nos traz um olhar feminino sobre a vida, sobre mãe e filha e seus conflitos, e nos remete a Clarice Lispector, que escreveu: “A mulher é um mistério de intensidade e força. Explorando sua complexidade, busca por identidade e liberdade, frequentemente, através de epifanias e da surpresa de ser mulher, transitando entre a força interior e os papéis sociais”.
Eliety Cigaarini é a protagonista da peça. A ótima e experiente atriz revela neste texto e nessa interpretação um momento pleno da sua trajetória artística, trabalhando as diferentes nuances interpretativas da personagem. Tem força e sentimento para preencher o teatro e emocionar o público.
Gabriela Cigarini – talentosa – com bom domínio corporal, dicção perfeita e ótimo trabalho das emoções, mostra-se uma atriz com futuro promissório.
Anette Naiman compõe esta trilogia de “arte” em cena.
O diretor Otávio Martins desenha este singelo jogo cênico com precisão e beleza.
O desenho de luz de Domingos Quintiliano marca os diferentes momentos e espaços cênicos.
A Cenografia é uma instalação contando a história. Um acerto do grupo.
O figurino da atriz Eliety Cigaarini não tem um conceito bem definido. E por demais forte, realista, mais ainda no caso da filha – não encontra o caminho da direção.
Assistimos a um trabalho ótimo de atores e direção, que encanta a plateia pelo jogo cênico e performático de cada interprete.
Assista “Asas de Pano”. Você vai encontrar “estas atletas do coração” em cena, tentando nos entregar o melhor da sua arte e do comprometimento com o fazer artístico.
Que venham mais 40 anos para esta autora, e que a “Poltrona” da cena em que ela narra parte das histórias fique para os descendentes da melhor “arte”. É um momento que precisamos como nunca. Que estes “navegantes solitários” nos façam refletir sobre nossas ações e sentimentos, assim talvez caminhemos para um futuro menos violento.
Blog Pensamento
Pamela Duncan
Alice Eugenia
Asas de Pano
De 07 de fevereiro a 22 de março de 2026
Teatro Experimental
Rua Barra Funda, 637. São Paulo/SP

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